terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Medo


O Medo

Gritava aos quatro cantos, de leste a oeste, a ausência do medo (a não ser por lagartixas que, sinceramente, vem diminuindo significativamente).
Mas nunca tive medo de dor. Nem das lembranças. Das histórias. E por mais feridas abertas (hoje, cicatrizes) que eu tenha vivido... Nenhuma delas me impediu de mergulhar de cabeça em qualquer coisa, em qualquer situação. Intensa até o último fio de cabelo.
Eu gosto de altura. Então... Se tem que voar, mesmo que sem asas... Eu voo, sem medo do tombo. Que bobagem!
Gosto dos sonhos, das realizações, das danças, dos sons, do mundo, das léguas, das distâncias e aproximações. Gosto das histórias, das lembranças, das crianças... E vivo cada pedacinho de tudo, sem nenhum receio do durante, do antes ou do depois. Nunca tive medo da vida, muito menos da morte. Sou cria de sonhos, sou filha da sorte. Mas sou, mais que tudo, filha da mãe... filha do pai... E, Meu Deus!!! Que medo assumido eu tive hoje!
Somos escravos do tempo. E, em um dado momento, o “senhozinho” vem nos mostrar quem manda em quem, mesmo assinando carta de alforria.
Tive sonhos destruídos, devastados. O amor, que tanto escrevo e penso me pregou golpes fatais e eu, parecia fazer questão de cair em todos eles. E então, me pego na análise e percebo que não há amor maior que este materno, paterno, fraterno, eterno... E neste amor eu não precisei construir nada. O sonho cresceu comigo, naturalmente, a cada passo, a cada palavra dita, vivida. A cada colo, a cada bronca, a cada olhar de orgulho ou decepção. E, Meu Deus... Como é grande, forte, verdadeiro e como me preenche!
A morte se fez presente hoje em minha vida, como se faz presente na vida de alguém todos os dias. Eu sofri. Chorei a minha dor, a dor dos filhos, dos irmãos, dos netos. E percebi que o tempo passa e que, o que nunca deveria acontecer, acontecerá um dia. E eu ainda não consigo aceitar, imaginar, pensar que ficarei sem eles um dia.
Assumido o medo. – Mãe! Pai! Sejam eternos. Porque eu não suportaria nunca viver sem vocês. Porque se há algo de bonito em mim... só existe porque vocês existem aqui.  E eu, tão despida de qualquer medo, reluto qualquer idéia de ficar por aqui sem vocês. E eu, egoísta como não gosto de ser e contrária às regras como sempre sou, peço: - Me deixem, por favor, partir antes.
Débora Andrade

Agradeço


Agradeço

Aqui para agradecer. Não sei bem à quem e nem à quê. Mas, agradecer.

Talvez pela possibilidade em desabar de mim todas as dores no papel. E de me refazer em cada parágrafo.

De contar minhas histórias e renascer tantas vezes no compasso incerto das letras miúdas e estrondosas.

Agradecer por poder compartilhar o barulho. Agradecer à quem lê, à quem sente, à quem compartilha, à quem inspira...

E, de ponto a ponto, me rego como planta nascendo e renascendo, cada vez mais forte, menos sensata e muito menos santa.
O dom da escrita me doa uma humanidade tamanha e me permite, pelo menos por aqui, ser o que desejo sem mais ou menos horas.

Agradecer... Não sei bem à quem e nem sei bem à quê. Mas agradecer por mim, por você.

Por toda a loucura contida no papel.
Por toda história enterrada entre os pontos.
Por todo parto e partida em palavras.
Pela vida.
Pela arte.
Por toda dor rasgada em versos.
Por todo amor declarado inverso.

Pelos sonhos,
Pelos encontros...
Reencontro,
Desencontros...

Por mim...
Por você.

Agradeço.
Débora Andrade

Pelo Bem Que Me Faz


Pelo Bem Que Me Faz

Ando sorrindo de canto a canto em todos os cantos e por qualquer canto.
E se ontem eu não sabia a quem agradecer, hoje tenho certeza que posso agradecer a você.
Desfiz meus armários abarrotados de lembranças e todo espaço ali, agora, é teu. E, embora eu saiba que haverá ainda um bom tempo até lotar das nossas peças, sei que todas nos vestirão com gosto de novo e, assim, sorrindo... vou esquecendo o gosto amargo do adeus.

“Doce”, “vida”, “meu”, “amor”.
E minha boca volta a falar.
E sai com gosto de festa.
Toda festa que faço para você, com você, por você... por nós.
E volto a falar "nós", desenhando ao nosso redor, laços.
Revive em mim a vontade de amar outra vez.
Sem limites, sem dose, completa e completamente entregue.
E vivo todo este bem que você me faz sem nenhum medo do que venha ser o amanhã.
Mesmo suspeitando que teremos muitos “amanhãs” juntos.
Hoje, em palavras bem simples e costumeiras, cometo o clichê quase ridículo de te agradecer.
- Pelo bem que me faz. Pela paz que me traz. Pelo quanto me cuida. E, principalmente, por ter encontrando o atalho que me levava até você.

E assim, vou conseguindo me reencontrar.
Débora Andrade

Declaração


Declaração

Talvez você ainda não tenha percebido a importância da sua chegada à minha vida. Ainda não tenha sentido a importância que dou ao fato de te sentir em mim.

Tudo era vazio. E nos cantos do meu peito, ecoavam apenas as notas de dor e saudade. Saudade dele, saudade de mim. Saudade...

Já não esperava muito dos amores. Já que a vida se encarregou de me trazer tantos presentes e eu, mais parecia uma menina mal educada, evitando os embrulhos e laços.

Então chega você, tão avesso aos meus planos, em um momento de tantas decisões tomadas, e me toma...

Como foi bom ser tomada por ti. Como eu adoro seu abraço, seu beijo, seu gosto, sua pele, seu calor, suas palavras, seu silêncio, seu olhar... Como eu gosto de tudo em você.

E naquela noite (aquela que você me surpreende ao lembrar de cada detalhe), senti o frio na barriga que eu desejava. Anunciava sua chegada. E não só na minha vida como, também, em mim.

Voou de mim qualquer angústia. E toda sua entrega despretensiosa acordou em mim o que eu já acreditava estar morto.

Hoje eu durmo e acordo com a imagem dos teus olhos a me olhar e sua voz dizendo que “meus olhos brilham”.  E você mal sabe que este brilho foi resgatado por agora, depois da tua chegada.

Sim. É quase tudo ao avesso do que esperei. Mas foi você o responsável por adentrar minhas portas. E embora tenha toda força do mundo em suas mãos, é com carinho e delicadeza que acorda minha coragem, minha vontade de sonhar e de te amar muito e sempre.

Esperamos pelas tempestades, baby. E toda esta tua disposição em viver ao meu lado e esta tua fé de que "pode me fazer feliz", me enche de vontade de te levar até o arco-íris. E é lá que vamos rever os nossos passos e, assim, teremos a certeza de que nada foi em vão.
Débora Andrade

Neologismo


Neologismo

 -Você já pensou no amor que sentiu por todas as outras pessoas? No amor que viveu? Àquelas que você disse “te amo”. Pensou no que sentiu por elas? No que viveu com elas?
Eu pensei! E nem foi tão difícil ou demorado.  De mim, até hoje, só uma pessoa ouviu .
E, revendo tudo... Sim, foi bonito. Eu me doei. Eu queria mesmo era fazer muito feliz. Mas, talvez eu quisesse mesmo era ser feliz com esta felicidade que eu proporcionava. E era. Talvez, sim, fosse amor. Mas eu pensei que amor era para sempre. Que não morreria ou enfraqueceria com o tempo, convivência ou situações difíceis. E  este, enfraqueceu.  E hoje morre um pouco dele todos os dias. Certamente, não sobrará muita coisa além das lembranças e do respeito.
Então, baby... Pensando nisso, decidi não te amar. Não quero viver o amor com você, se o amor for o que eu já vivi. Quero viver com você algo bem maior, mais sublime,  mais generoso, compreensivo e bem mais resistente...
- Então, o que você quer sentir por mim? O que quer viver?
- Ainda não sei. Mas, talvez, eu invente uma nova palavra.  E você saberá, exatamente, o quanto tem mais de mim que qualquer outro já teve.
Débora Andrade

Despedida


Despedida

Eu esperei, esperei e esperei. Esperei tanto que imaginei que eu não merecia mais. Ou que não existisse, mesmo. Que não passasse de invenção. Destas tantas que minha cabeça fabrica dia e noite neste meu mundo cor de rosa que os amigos conhecem bem.

Quando eu já não esperava mais, chega você. E muda o gosto amargo daquele vazio, preenchendo todos os espaços com ternura, com doçura, proteção e algo a mais, que vou chamar de amor, enquanto não tenho uma nova palavra para esta "troca"... Este sentimento que vem brotando como um girassol... Desabrochando suas pétalas amarelas, cor de alegria, em busca da luz... em busca do Sol... E encontrando no solo todas as raízes que são nossas.

E você mudou. Mudou o sorriso no meu rosto. Mudou meu pensamento antes de dormir ou acordar. Mudou meu suspirar. Mudou o brilho dos meus olhos. Mudou minha maneira de pensar sobre laços, pingos e nós.

E eu quero tanto... Quero-te tanto... Importo-me tanto... Tanto...
E um tanto de saudade já enche este meu peito. Saudade destes nossos dias sem horas. Das nossas noites tão iluminadas pelo brilho do nosso olhar que quase ofuscava a tão platinada Lua. Saudade das nossas mãos juntas. Do nosso silêncio. Da nossa respiração ofegante. Saudade de nós... Saudade, doce...

E o que farei? Se agora meus sonhos se dividem, mais uma vez.
Talvez, me revoltar com este destino que se encarrega destas  encruzilhadas das minhas esquinas, pregando peças de decisões? Ou, deixar que o girassol durma suas pétalas amarelas sem muita esperança de que o Sol renasça?  Mas, como? Se já não mais imagino meus dias sem teus carinhos. Tuas poucas palavras tão sábias e teu abraço... Este abraço que me fez perder ali dentro, bem quietinha, todo meu medo de entrega... e ali mesmo renasceu toda minha força de viver amor.

Não sei me despedir de você. Não consigo.

Não vou saber e nem quero te dar um beijo, um abraço ou uma flor de despedida.

Retiro-me daqui, com medo de me retirar da tua vida. E se você quiser, deixo parte do meu coração em tuas mãos. Você saberá cuidar enquanto respiramos esta vírgula. E, sem promessas, apenas confesso... Sei todo caminho de volta. E, se for preciso, ensino o caminho até a mim.

Mas, com você, me recuso a ter um ponto final.
Débora Andrade

Indecisão


Indecisão

O dia acordou indeciso.
A chuva cai mansa, sem pressa, e aumenta a angústia entre o sim e o não.

Entre a necessidade e vontade, você dança em passos e compassos, me dando a mão e sorrindo para mim.
Sem respostas, neste breve rascunhar, viajo sem analisar propostas e entrego tudo nas mãos de quem mais sabe de mim. Ele nunca me deixou na mão. E sei que Ele será, mais uma vez, sensato.

O que já existe aqui neste coração, não vai morrer nem com milhões de quilômetros de distância. E eu aprendi a esperar. Com pouca calma. Mas, aprendi.

Você me lembrou como é viver com confiança.

O dia vai dormir indeciso.
E amanhã, talvez, o dia nasça com Sol. Sem chuva.

E você continuará a viver em mim. Dançando entre a necessidade e vontade. E de mãos dadas às minhas.

Amanhã... é amanhã.
Débora Andrade